O feminismo contemporâneo enfrenta o desafio de libertar a mulher da narrativa que a coloca sempre no lugar da vítima. Ao longo da história, muitas autoras identificaram como a cultura patriarcal produz esta posição. Actualmente, é necessário repensá-la. Simone de Beauvoir, Virginie Despentes, Audre Lorde e Bell Hooks oferecem perspetivas distintas, mas convergentes, na construção de um novo feminismo que não reduz a mulher à fragilidade, mas reconhece-a como sujeito activo, criador e resistente.
Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, afirma: “não se nasce mulher: torna-se mulher” (Beauvoir, 1949/2009, p. 361). esta afirmação mostra que o género é, antes de tudo, uma construção social e não um destino biológico. Ao descrever a mulher como “o outro”, Beauvoir denuncia a forma como as estruturas sociais e culturais a colocam num papel secundário. A recusa da mulher como vítima, nesse sentido, é prolongar a sua crítica: a libertação exige que a mulher não seja definida a partir do olhar masculino, mas que se assuma como sujeito da sua própria vida. Senhoria do seu próprio destino.
Virginie Despentes, em Teoria King Kong, reforça essa insubmissão ao narrar a experiência da violação: “não escrevo a partir da vitimização, escrevo da revolta. não me sinto marcada por um estigma eterno, sinto-me fortalecida pela raiva” (Despentes, 2006/2016, p. 23). A sua perspectiva recusa a ideia de que a violência sofrida deve condenar a mulher a um lugar de silêncio. Pelo contrário, Despendes transforma a experiência pessoal numa arma política, desmontando o sistema que protege agressores e estigmatiza as vítimas.
Audre Lorde acrescenta ainda outra dimensão fundamental: a raiva como força transformadora. No ensaio The Uses of Anger, afirma: “a raiva das mulheres não é destrutiva. a raiva é cheia de informação e energia” (LORDE, 1981/2007, p. 127).
Para Lorde, o feminismo não pode domesticar a emoção em nome de uma neutralidade académica ou política. A raiva, sobretudo das mulheres negras e marginalizadas, é fonte de clareza, de denúncia e de mobilização colectiva. Assumir a raiva é recusar a narrativa de passividade.
Já Bell Hooks insiste na importância de um feminismo inclusivo e colectivo. Em Feminism is for Everybody, afirma: “o feminismo é para todos. não é apenas um movimento para mulheres privilegiadas, mas um compromisso com a erradicação do sexismo em todas as suas formas” (Hooks, 2000, p. x).
Quando as mulheres são representadas apenas como vítimas, muitas ficam excluídas da narrativa dominante — sobretudo as de classes populares, negras ou queer. para Hooks, recusar a mulher como vítima é também recusar um feminismo elitista, construindo no seu lugar uma luta comunitária.
Estas quatro autoras convergem, ainda que por caminhos diferentes, numa ideia central: a mulher não pode ser reduzida ao estatuto de objecto ferido. O novo feminismo deve ser plural, raivoso, inclusivo e radical. Deve reconhecer a violência e a opressão, mas não permitir que estas definam a essência do ser feminino. Ao invés, deve afirmar a mulher como sujeito político, capaz de transformar a dor em acção, a raiva em energia e a diferença em potência.
Catarina SottoMayor
referências
LORDE, A. (2007). The uses of anger: Women responding to racism. In A. Lorde, Sister outsider: Essays and speeches (pp. 124–133). Berkeley: Crossing Press. (Texto original de 1981)
BEAUVOIR, S. de (2009). O segundo sexo (S. Milliet, Trad.). Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (Obra original publicada em 1949)
DESPENTES, V. (2016). Teoria King Kong (M. Bernardini, Trad.). São Paulo: N-1 Edições. (Obra original publicada em 2006)
HOOKS, B. (2000). Feminism is for everybody: Passionate politics. Cambridge, MA: South End Press.
O mais interessante em bell hooks a nosso ver é o fato de ela ressaltar o forte e magnífico papel que as feministas e sufragistas negras, como Mary Church Terrell, por exemplo, tiveram, principalmente ao enfatizarem a sororidade e ao amor pelas irmãs em meio ao feminismo de primeira onda, visto que esse é um tema infelizmente pouco focalizado, mesmo nos dias atuais, em meio às discussões políticas e intelectuais.
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