As redes sociais tornaram-se palco para a expressão do inconsciente colectivo. nelas, projectamos medos, frustrações e desejos de reconhecimento. O que deveria ser um espaço de diálogo e partilha muitas vezes transforma-se num terreno de hostilidade, onde a crítica legítima dá lugar ao ataque, e o debate é substituído pelo bullying digital. Como se as redes libertassem impulsos agressivos reprimidos, permitindo que a parte moralizante se manifeste na forma de julgamento constante sobre o outro.
A política é um dos campos onde essa dinâmica se revela de forma mais crua. quando alguém se identifica demasiado com uma ideologia, a divergência passa a ser sentida como ameaça ao próprio ego. O amigo de longa data ou o familiar deixam de ser sujeitos com uma história partilhada e tornam-se símbolos de algo a ser combatido. A amizade cede perante a lógica da projecção e da identificação totalizante, onde qualquer diferença se converte em ruptura.
O mesmo se passa com a religião, que — como dizia uma mulher que ouvi recentemente — também é política. ao tocar no sagrado, toca-se também nas estruturas mais íntimas do sujeito, naquilo que sustenta a sua identidade. por isso, quando alguém questiona ou simplesmente pensa de forma diferente, a reacção, não raras vezes, surge carregada de agressividade. no fundo, não se discute a crença em si, mas a ameaça que o outro representa para a integridade do eu.
A conjunção entre política e religião nas redes sociais intensifica esse cenário: opiniões transformam-se em trincheiras, o discurso perde a função de simbolizar e passa a funcionar como arma. o resultado é a fragmentação dos laços sociais, o empobrecimento do debate e o predomínio de uma lógica narcísica, onde importa mais vencer a discussão do que compreender o outro.
Para romper este ciclo, seria necessário resgatar a função simbólica da palavra: ouvir, elaborar, discordar sem destruir. Só assim se pode transformar o espaço digital num lugar de encontro, em vez de num espelho onde cada um apenas confirma a sua própria imagem.
Catarina SottoMayor