Ser discreta é uma forma de lealdade. Nunca me foi natural atravessar as fronteiras da intimidade alheia; sempre senti que o que pertence ao outro deve permanecer protegido, como um jardim que só floresce quando não é pisado. O que me dói é perceber que nem todos entendem este silêncio como respeito e que a falta de cuidado pode ser, tantas vezes, malícia. Há quem queira minar o que os outros têm, não com gestos grandiosos, mas com a insinuação discreta, a curiosidade forçada, o comentário, a posição que envenena.
Não tenho grande fé em atitudes com falta de intenção.
A malícia instala-se precisamente onde não há este cuidado. Não precisa de gritar: infiltra-se, aos poucos, até transformar confiança em dúvida, proximidade em vigilância. O lamento é por isso — pelo modo como um gesto impensado, ou uma palavra lançada sem delicadeza, pode envenenar aquilo que se construiu com silêncio e ternura.
Escolho não expor. Não por medo, mas por amor. Porque sei que as relações respiram melhor longe da plateia, e que a intimidade só se mantém viva quando não é convertida em espectáculo. O silêncio, neste caso, não é ausência — é presença protegida. Ser discreta é resistir ao veneno e oferecer ao vínculo aquilo que ele mais precisa: espaço para ser inteiro, sem o peso do olhar exterior.
´É assim que se sente. É assim que se vive.
Catarina SottoMayor