O amor entre a sede e o medo

Bauman e o amor líquido

Amar, diria Bell Hooks, é uma prática, um verdadeiro compromisso revolucionário. Não um capricho ou um acaso, mas de um exercício diário de cuidado, de respeito e de crescimento mútuo. Bauman, por outro lado, descreve o amor de forma líquida, como experiência volátil, onde o desejo se confunde com o consumo e o medo da perda nos torna reféns da superficialidade, do vazio, do oco. Entre esses dois polos – o amor como construção e o amor como fluidez – vivemos uma contradição extremamente inquietante: queremos a segurança de um vínculo, mas ao mesmo tempo, tememos pela sua permanência.

Bell Hooks

Na era contemporânea, na qual vivemos o imediato, o amor muitas vezes se dissolve antes mesmo de ganhar raízes. Ligamo-nos com a rapidez de um clique e exatamente com mesma facilidade, desfazemo-nos dele. Queremos sentir, vibrar, mas não queremos sofrer. recusamo-nos a isso.

Desejamos profundidade, sem o peso de um compromisso. Segundo Bauman, essa é a lógica da modernidade líquida: tudo se mantém leve, pronto para ser descartado se não mais serve o propósito: se dá muito trabalho, se exige.

Uma relação amorosa, neste contexto, torna-se simplesmente um bem de consumo – sedutora enquanto novidade e dispensável quando exige esforço.

Mas amar, como defende Hooks, não é um ato de posse, não é um jogo de conveniência. Amar é estar presente, é aceitar o outro em todos os seus complementos, é cultivar um espaço onde o medo da rejeição não paralisa a entrega.

Segundo ambos, desaprendemos a amar. Confundimos paixão com amor, atracção com conexão e desejo com compromisso. Procuramos no outro uma resposta para os vazios, o tédio, que por vezes, nem sabemos nomear. Queremos ser amados, mas não queremos amar. Temos, sobretudo, receio extremo da vulnerabilidade que isso acarreta e da responsabilidade que isso implica.

Há sempre um dilema: queremos fundir-nos mas, ao mesmo tempo, manter uma individualidade intacta. Desejamos segurança, mas é impensável abdicar da liberdade. Tememos a solidão, sem no entanto, estar dispostos a enfrentar os desafios que o amor acarreta.

É desta forma: exactamente assim, que ficamos presos no limbo entre a sede e o medo. Desejamos um afecto profundo, mas assustamo-nos com o que este exige.

Talvez a resposta esteja no meio-termo: nem o amor como uma prisão: uma cárcere intolerável. Nem o amor como qualquer coisa descartável, que se deita fora à primeira contrariedade.

Um que aceite a impermanência sem ser descartável, que saiba compreender a liberdade sem ser indiferente, sem ser supérfluo. Um amor que resista ao medo, ao receio primário e que se construa na práctica e não apenas na promessa do que não será. Um que seja escolha consciente e não apenas fruto do impulso: da pulsão; do desejo.

Afinal, o que mais assusta para além de amar, é sofrer a total ausência do sentimento mor: o amor.

Catarina SottoMayor

Publicado por Catarina SottoMayor

Psicoterapia Psicanalítica, Psicanálise e Hipnose Clínica

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