A peça de teatro A Médica, inscreve-se numa tradição dramatúrgica que procura interrogar os limites éticos da prática médica, mas fá-lo de uma forma que, paradoxalmente, reduz a complexidade dos seus próprios pressupostos.
De grande força e fortíssimas interpretações, a peça apresenta questões fundamentais sobre o poder, a responsabilidade e a subjetividade no exercício da medicina, mas recorre a um enquadramento narrativo que, ao invés de potenciar o conflito dialético, cristaliza as posições das personagens num esquema binário, esvaziando as nuances psicanalíticas e filosóficas que poderiam enriquecer a sua leitura.
Do ponto de vista psicanalítico, a protagonista parece representar uma figura do superego freudiano, uma instância normativa que se debate com a repressão dos seus próprios desejos e impulsos. No entanto, a peça apresenta a protagonista como uma consciência moral em confronto com um sistema que a impede de exercer plenamente a sua ética profissional. A ausência de um conflito interno mais desenvolvido, onde o desejo reprimido – a pulsão de morte – ou a angústia da castração simbólica fossem explorados – enfraquece a profundidade psicológica da personagem, tornando-a uma mera portadora de um discurso moralizante, em vez de uma subjetividade dividida e em crise.
Ao nível filosófico, a peça poderia ter beneficiado de uma abordagem mais foucaultiana no que diz respeito à relação entre saber e poder. Michel Foucault demonstrou, em O Nascimento da Clínica, como a medicina moderna é indissociável de um regime de visibilidade que disciplina corpos e subjetividades. No entanto, A Médica parece desconsiderar essa matriz estrutural do poder médico, preferindo opor a integridade individual da protagonista a uma institucionalidade amorfa e opressiva. Ao fazê-lo, ignora a possibilidade de interrogações que poderiam ter sido mais profundas, sobre como a medicina participa na construção da normatividade e da exclusão, bem como a própria ambivalência da posição do médico enquanto agente de poder na vida do outro.
A peça levanta questões relevantes sobre o lugar das mulheres na medicina, mas fá-lo de uma forma que, em vez de subverter as estruturas patriarcais, por vezes as reforça. A protagonista, ao ser representada como uma heroína solitária, vítima de um sistema que não a compreende, reproduz a narrativa clássica da mulher excepcional que se distingue da sua própria condição feminina, em vez de inscrever a sua batalha num contexto mais amplo de desigualdade sistémica.
Seria interessante que a peça questionasse não apenas a marginalização das mulheres na medicina, mas também os modos como a feminização de certas áreas médicas influencia a distribuição de prestígio e poder dentro do próprio campo. Judith Butler, em Corpos que Importam, alerta para a forma como a performatividade de género é regulada por discursos normativos, e a peça poderia ter explorado melhor como a identidade da protagonista é constrangida não apenas pela medicina enquanto instituição, mas também pelas expectativas de género que recaem sobre si.
Por fim, a estrutura dramatúrgica da peça revela uma tensão entre a necessidade de provocar o público e a tentação de lhe impor uma leitura demasiado fechada. O teatro, enquanto espaço de encenação do conflito e do desejo, poderia aqui ter explorado a ambivalência das decisões médicas de forma mais aberta, sem reduzir a narrativa a uma dicotomia simplista entre o bem e o mal. Ao estruturar-se como um discurso de denúncia.
Questiono se a peça perde a oportunidade de instaurar um verdadeiro campo de indeterminação, onde a ética médica não fosse um campo de respostas certas, mas um espaço de permanente negociação entre subjetividade, poder e responsabilidade.
A peça levanta questões pertinentes e complexas que prendem o público até ao último minuto e demonstra-se impactante na forma como individualmente se emerge em questões pouco pensadas no nosso quotidiano.
Há a ressaltar o excelente trabalho cénico, de cariz distópico que sofre as mais interessantes metamorfoses durante todo o enredo e que evidenciam acompanhar ao milímetro todas as transições.
Catarina SottoMayor