Popper et al. sobre a Psicanálise

Sigmund Freud

Um dos principais críticos das teorias de Freud foi o Karl Popper (1902-1994). Um dos mais influentes filósofos do século XX. Popper considerava a psicanálise como uma pseudociência por produzir hipóteses que não podiam ser refutadas empiricamente. Chegou mesmo a comparar a psicanálise à astrologia. Defendia que a ciência se diferencia da pseudociência, porque hipóteses científicas podem mostrar-se falsas por meio de observação e experimentação. Sustentava que as teorias científicas são caracterizadas por implicar a previsão de que as observações futuras podem revelar-se como falsas.

Popper considerava que quando as teorias se mostram falsas por observação, os académicos, numa atitude revisionista, podem rejeitar a teoria em favor de outra distinta ou mesmo antagónica, alterando por completo a hipótese.

No caso da psicanálise, Popper argumentava que esta, que descreveu como não científica, não faz previsões que possam permitir que sejam refutadas, por não existirem previsões precisas, as teorias acabam por ser criadas para se adequar e fornecer uma suposta explicação a um qualquer comportamento observado.

Para ilustrar o seu ponto de vista, Popper apontava como um exemplo dois homens: um empurra uma criança para a água com intenção de afogá-la e outro que mergulha na água para salvá-la. Segundo ele, a psicanálise pode explicar estas duas acções aparentemente contraditórias.

Na primeira hipótese, a psicanálise pode afirmar que a acção foi impulsionada por um componente reprimido do id, e, no segundo caso, que a acção resultou duma sublimação bem-sucedida desse mesmo tipo de desejo, pelo ego e superego. Para Popper, independentemente do comportamento do sujeito, a psicanálise pode ser usada para a explicar. E isso, segundo ele, que impede-nos de formular quaisquer experiências que possam apontar a psicanálise como falível.

Segundo Popper (1974) “Nem Freud nem Adler (…) excluem a acção de qualquer pessoa em particular de qualquer forma particular, quaisquer que sejam as circunstâncias externas. Se um homem sacrificou a sua vida para resgatar uma criança que se afogava (um caso de sublimação) ou se ele assassinou a criança por afogamento (um caso de repressão) não poderia ser previsto ou excluído pela teoria de Freud”.

Por outro lado, o autor assinalou que muitas vezes existem propósitos legítimos para clamar teorias não científicas, defendendo que estas podem mais tarde tornar-se científicas, à medida que se determinam métodos para gerar e comprovar previsões específicas com base teórica.

Um exemplo citado por Popper é a teoria de Nicolau Copérnico (1473-1543) do universo centrado no sol, que inicialmente não produziu previsões potencialmente falsificadas. No entanto, os astrónomos eventualmente determinaram formas de testar a hipótese de Copérnico, tornando-a científica.

Ao longo dos anos, a validade científica da psicanálise foi posta em causa por várias figuras como Chomsky, Jay Gould e Feynman. Grünbaum (1923-2018) dissecou a fundo a obra de Freud, apontando o que considerava serem as deficiências, publicando Os Fundamentos da Psicanálise: Uma Crítica Filosófica (1984), que na época foi recebida como um ponto de inflexão no debate sobre a psicanálise e considerada por alguns críticos de Freud como uma obra-prima.

Curiosamente, Grünbaum antes de ser crítico de Freud, era um grande crítico de Popper e foi através deste que se começou a interessar por dissecar a obra do primeiro. Segundo este, o problema da psicanálise estava no que chamava de Tally Argument (argumento da adequação), criticando Freud por acreditar que apenas a psicanálise podia produzir efeitos terapêuticos e, segundo este, os pacientes não podiam ser considerados confiáveis na descoberta do que realmente resultou numa minoração dos seus transtornos.

Alguns especialistas defendem que o merecimento de ser considerado ciência exige a predominância de dados disponíveis para todas as partes interessadas, e que quando a teoria é assim orientada, altera em resposta a novas observações.

Em entrevista à BBC News Brasil (2023), Anna Järvinen refere que as reações inflamadas sobre se a psicanálise é ou não ciência “se devem, pelo menos em parte, ao facto de que, apesar de suas deficiências bastante debatidas e delineadas, a psicologia continua a ter uma presença bastante proeminente, não menos no domínio clínico”.

“(…) Muitos consideram isso desconfortável e francamente ameaçador, possivelmente devido ao facto de que a teoria de Freud não é fácil de entender no sentido intelectual (e muito poucos leram seus textos em primeira mão), e toca em áreas muito sensíveis”. Segundo Järvinen, “a psicanálise é extremamente poderosa, com o paciente sendo frequentemente colocado na posição de objeto, e os tratamentos costumam ser vistos como misteriosos e até sombrios (…) Por serem de difícil compreensão, os psicanalistas às vezes são vistos como “elitistas” nas fileiras de diferentes profissionais da saúde mental”.

Embora Järvinen não considere a psicanálise como ciência, defende que a contribuição de Freud para o campo da psicologia é irrefutável.

Para Andrade (BBC, 2014), a concepção de ciência não é uniforme.

“Com o advento das Ciências Humanas, tivemos uma reelaboração da própria concepção de evidência. A evidência empírica não está mais no plano material, mas na observação do comportamento humano a partir de análises sociológicas, antropológicas, etc. A psicanálise deixa de orbitar em torno da ligação com a psiquiatria e neurociência e passa a dialogar mais com as Ciências Humanas (…) Quando se diz que a psicanálise não é uma ciência, há um desentendimento da produção das Ciências Humanas. E, mais grave, quando se fala que a psicanálise é uma pseudociência, coloca-se a ideia de que seus efeitos são calcados em coisas mágicas e misteriosas, que não tem a ver com a reflexão que a própria psicanálise propõe”. Segundo Andrade, a psicanálise não propõe ser a única verdade.

Mesmo que o próprio Freud considerasse a psicanálise uma teoria científica válida, a sua própria metodologia de pesquisa enfrenta sérios problemas” (Hoffman).

“Mas — ao contrário da proeminente crítica de Popper — não se pode negar que muitas reivindicações da teoria psicanalítica são empiricamente testáveis e que, desde a década de 1950, um notável corpo de evidências que atende aos padrões de pesquisa científica foi gerado com o objetivo de confirmar as reivindicações teóricas centrais de psicanálise e a eficácia da terapia psicanalítica”, afirmou no seu artigo “Psicanálise como ciência” em Manual de Filosofia da Medicina (2017).

“Portanto, no sentido processual ou metodológico, a psicanálise de hoje é sem dúvida uma ciência” ((Hoffman, 2017).

Fontes: BBC News; Carl Popper; Natalia Pasternak; Luís Barrucho.

Publicado por Catarina SottoMayor

Psicoterapia Psicanalítica, Psicanálise e Hipnose Clínica

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