De 1966, Personna de Ingmar Bergman, é uma referência na cinematografia. A obra remete tanto à tradição do teatro trágico da Grécia – no sentido da representação de papéis, à teoria psicanalítica junguiana, com o conceito de máscara, à teoria freudiana da divisão do sujeito em consciente e inconsciente, e, também, quanto à proposta lacaniana do estádio do espelho e da máscara.
Quantas personagens aparecem em Personna? Serão cinco distintas, ou apenas uma duplicada? As personagens Elisabete, atriz famosa, e a enfermeira Alma são certamente a mesma pessoa. Alma é a alma de Elisabete. Alma como conceito junguiano de anima.
Trata-se da história quotidiana, com um eu consciente falante e um eu inconsciente, mudo, manifesto em sintomas, já que o recalque não atinge diretamente os afetos, mas incide sobre as palavras que os representam.
Passa-se da realidade à ficção e vice-versa. Até fisicamente as duas protagonistas são parecidas. Na linguagem freudiana, podemos interpretar Alma como o conteúdo manifesto de um sonho constante, cuja parte latente em Elisabete, só aos poucos se vai revelando.
Segundo a psiquiatra de Elisabete, não existe nenhuma patologia. Para amenizar a personagem que representa a médica recomenda-lhe um retiro, oferecendo a sua casa de verão para repousar, junto com a sua enfermeira.
Elisabete não verbaliza, evitando a mentira, já que lhe é impossível transmitir a verdade. Parece preferir não usar palavras, máscaras ou personas, que testemunhem falsidades.
Cansada de representar, resolve simplesmente ser verdadeira: muda. Alma representa-lhe o pré-consciente que vai sustentando a narrativa do discurso da histérica. Elisabete constrói juízos de existência e de valor freudianos, manifestando-os somente por gestos ou abanos de cabeça.
No filme encontramos o tema freudiano do sujeito dividido, do duplo narcísico e nos confronta com a correlação lacaniana – o estádio do espelho – no qual a consciência de si decorre da consciência do outro. Revelando uma subjetividade inerente ao facto de que somos seres expressivo-verbalizantes.
O filme parece reproduzir uma sessão de análise, em que Elisabete provoca em Alma, o desejo de falar. A presença constante do silêncio da analista, que evita qualquer julgamento, impele a paciente a dizer tudo o que lhe vem à cabeça, criando condições para o estabelecimento de uma transferência positiva e negativa, de amor/ódio, imaginária e simbólica, abrindo o inconsciente para uma catarse que se aloja tanto nesta narrativa, como num divã de psicanalista. A tese de que as duas são a mesma é insinuada exaustivamente no filme. Os corpos e os rostos das duas personagens aparecem sobrepostos várias vezes.
Numa inversão de papéis, Alma apresenta-se, no início do filme, como uma irmã, uma enfermeira que cuidará de Elisabete. E no fim, é Alma que lhe pede ajuda e lhe diz que o silêncio pode ter uma força brutal.
A carta que Alma se oferece para entregar, são possivelmente duas cartas, uma para a psiquiatra e outra para o marido de Elisabete, porque logo depois, chega uma carta do distante Vogler, relatando que obteve informações da psiquiatra, e questiona-a se existe algum mal-estar entre eles. Ambas parecem ter um pesadelo igual, contorcendo-se na cama, ao mesmo tempo, ouvindo a voz de Vogler, que aparece pouco depois, confundindo as duas mulheres, abraçando Alma e dizendo que o filho deles sente falta da mãe. Faz sexo com Alma, pensando que é Elisabete.
Alma relembra o caso com um homem mais velho, e que numa orgia com rapazes, engravidou e abortou. Relata também a culpa que ambas sentem, a falta de sentido na vida, o vazio e, ao implorar que Elisabete diga alguma coisa, escuta finalmente, como resposta, um simples nada – a única palavra que profere o filme inteiro. No final, aparece um rosto composto de duas partes, metade de cada uma. Sendo que a sua despedida não se realiza na separação.
No final, um trecho de cerca de cinco minutos é repetido, no qual Alma relembra a verdadeira história em que o marido (de Elisabete), pródigo em elogios às qualidades desta, acrescenta que só lhe falta uma coisa: a responsabilidade de assumir a maternidade.
No início do filme, Elisabete interpretava a tragédia de Electra, versão de Eurípides (484 a.C.). Num determinado ponto da peça, que não é mostrado, ela interrompe a acção, traumatizada e não fala mais.
A história de Electra narra a mãe Clitemnestra casada com Agamenon e que o traiu com Agisto, enquanto o marido luta em Troia. Agisto tenta matar Orestes, irmão de Electra, para evitar ser morto por este. Electra salva Orestes e convida-o a matarem a mãe e o amante, sendo que já haviam assassinado Agamenon. Como Electra tinha pretendentes nobres, e Agisto temia ser morto por algum nobre seu descendente, obrigou-a casar-se com um colono pobre e impotente. Ora para Electra, este era um casamento morto.
No filme, Elisabete estagna na encenação da peça, possivelmente neste momento em que Electra arquitecta o assassinato da própria mãe. As duas viviam distantes geográfica e afetivamente. Electra mente, dizendo que vai parir um filho e pede que a mãe venha para dar assistência no parto. Quando a mãe chega, Electra e Orestes enterram o mesmo punhal na mãe, que sangra até à morte.
Neste momento, tudo indica que Elisabete se identifica com Electra, reconhecendo os seus próprios desejos passados e inconscientes, suscitados pelos desejos homicidas de Clitemnestra e matricídio de Electra, e rebelando-se contra as imposições sociais e culturais em relação ao casamento e à obrigação de ter filhos. Electra matou a sua mãe e o padrasto, salvando o irmão. Elisabete desejou matar o filho e afastou-se dele e do marido. Será o filho de Elisabete, o substituto de Orestes?
Não querendo sujeitar-se a manter as aparências enganosas, não aceitando ser a máscara e a persona, Elisabete prefere ser ética consigo mesma, reconhecendo tais desejos, e emudecendo em vez de mentir.
O conceito de mascarada desenvolvido por Joan Rivière, ao comentar a natureza da feminilidade moderna, dizendo que as mulheres intelectuais que tinham pleno sucesso na integração social e na vida conjugal e familiar estavam, de certo modo, obrigadas a exibir sua feminilidade como uma máscara, a fim de melhor dissimular o seu verdadeiro poder, e consequentemente a sua angústia.
No prólogo e no final do filme, aparecem imagens estranhas e incompreensíveis, como: lâmpadas fortes que acendem (o projetor de filmes, a eletricidade de Electra?), um pénis ereto, o demónio, uma aranha, uma mão segurando uma ovelha que sangra ao ser sacrificada, vísceras, cadáveres, etc.
Na peça de Eurípides, vários destes elementos também aparecem dispersos, em lugares distintos. Será que Personna uma versão moderna de Electra ? Deixo à consideração.